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Memorial

Este memorial de 260 páginas foi escrito por mim, Cassio Luiz Cardoso Sampaio em 2025, e retrata o resultado de 8 meses de pesquisas sobre a genealogia de minha família. O memorial é ilustrado por dezenas de fotografias cópias de assentos de nascimento, casamento, óbito, inventários, testamentos, inquirições de genere e outros documentos ancestrais.

Por questões de privacidade, o livro foi publicado somente para familiares e em breve pretendo entregar cópias às bibliotecas públicas de Felgueiras (Portugal) e São Paulo (Brasil).

A introdução e Epílogo do livro podem ser lidas abaixo. Os demais links deste blog oferecem informações sobre o costado (árvore genealógica), assentos (registros e outros documentos) e outros detalhes.

Introdução

Escrever um memorial familiar é, por definição, um exercício profundamente pessoal — e, inevitavelmente, imensamente complexo.

Nunca imaginei que um dia escreveria algo assim. Mas, à medida que minha pesquisa genealógica avançava, tornava-se cada vez mais claro que eu precisava fazê-lo. A confluência de fatores não deixava margem para dúvidas: era algo que precisava acontecer. Tudo começou com a simples intenção de aprender um pouco mais sobre os antepassados do meu avô Joaquim Cardoso Sampaio — em especial, sobre seu pai, Avelino Cardoso de Amorim.

No início, havia algumas perguntas específicas que eu buscava responder, como a razão do desaparecimento do sobrenome Amorim em favor do Sampaio. Mas a pesquisa abriu caminho para uma infinidade de outras questões — cada uma delas desdobrando-se em novos ramos de investigação, aos quais dediquei uma parte considerável dos meses que se seguiram à minha mudança para Portugal, em 2024.

Este trabalho é, ao mesmo tempo, um relato sobre meus ancestrais, seus lugares e seus tempos — e a história da minha própria jornada de descoberta. Tudo isso, inevitavelmente filtrado pela lente da minha trajetória pessoal, pelos meus valores morais e filosóficos.

Escrever os capítulos sobre meus pais e meus avós foi não apenas fácil, mas profundamente prazeroso — apesar da tristeza inevitável de relembrar o falecimento prematuro do meu pai, aos 54 anos. Ainda assim, reviver minhas experiências pessoais com cada um deles, acompanhadas de fotografias que trazem muitos desses momentos à tona, foi uma fonte de grande alegria. A “pesquisa”, nesse caso, foi mais um exercício de memória — minha e da minha mãe — em busca dos detalhes que enriquecem essas páginas.

Mas o centro gravitacional deste memorial está em tempos mais distantes — na segunda metade do século XIX e princípio do século XX — em uma pequena localidade do norte de Portugal. Rande, nome que até então eu jamais havia escutado, tornou-se o cenário central desta narrativa. E suas figuras humildes, mas marcantes, passaram a ocupar um lugar de destaque neste trabalho.

Um memorial dedicado a pessoas de tempos imemoriais inevitavelmente exige um número considerável de hipóteses e especulações. Fui extremamente cauteloso com elas, buscando sempre formas de verificar a plausibilidade de cada uma com base no contexto histórico, econômico e social dos períodos e locais em que viveram esses familiares.

Utilizei uma vasta gama de recursos digitais — ferramentas de valor inestimável para a genealogia contemporânea — e, ao longo do caminho, li milhares de páginas de inventários e assentos de batismo, casamento e óbito.

Todo esse processo foi, para mim, uma fonte imensa de prazer, mesmo sabendo que não produzi aqui uma obra de valor literário ou acadêmico. O rigor exigido por um estudo histórico formal não foi seguido, e a maior parte das fontes não está citada neste documento — ainda que todos os fatos aqui apresentados tenham sido pesquisados com dedicação, em algum canto da imensidão da internet.

Onde me esforcei com afinco foi na reconstrução precisa e cuidadosa dos costados — as árvores genealógicas dos diversos ramos da família. Alguns desses ramos exigiram meses de trabalho e centenas de horas de leitura, enfrentando caligrafias quase indecifráveis para os padrões atuais. Senti que precisava ser fiel à verdade — não apenas por respeito à história, mas porque essas pessoas são minha família. E, mesmo separadas por quase cinco séculos, sinto por elas uma estranha, porém profunda, lealdade.

É um retrato que percorre quase cinco séculos, testemunhando o declínio da sociedade feudal e da centralidade eclesiástica — transformações descritas por Alvin Toffler em seu notável livro Choque do Futuro, onde o ser humano, diante da velocidade das mudanças, se vê desorientado. Minha leitura pessoal é que essa transição — de uma vida “essencialmente dura, mas simples” para uma existência “potencialmente fácil, mas complexa” — ainda não provou ser compatível com a nossa biologia, marcada por uma evolução lenta e contínua.

É também um relato tecido por batismos, casamentos, sobrenomes, lugares, inventários, falecimentos — muitos deles precoces —, casas históricas, padres, uma paróquia, uma travessia a bordo da galera Camões de Leixões a Santos, uma casa de pasto na Longra, um restaurante em São Paulo, uma família fidalga e tantas outras desprovidas de bens.

Sempre fui apaixonado por história — e esta foi minha chance de narrar uma. Não uma história qualquer, mas justamente a história daqueles que, por caminhos incertos e silenciosos, acabaram por me trazer até aqui.


Epílogo

Jamais planejei escrever algo como este memorial. O que eu queria, inicialmente, era apenas conhecer melhor meus ancestrais lusitanos — algo de que falava havia anos, mas a que nunca havia dedicado tempo de verdade.
A experiência dessa pesquisa, e mais tarde da escrita destas linhas, foi profundamente enriquecedora — por vezes até emocionante. Sempre fui apaixonado por história, e pude aprender muito sobre as condições de vida de pessoas comuns, durante as transformações que os séculos XVI ao XX trouxeram ao cotidiano. Grande parte do que se estuda em história diz respeito a reis, políticos, generais e outros líderes. A genealogia, no entanto, oferece uma porta rara: a chance de entender a história a partir da perspectiva dos outros 99%.

Ver, pela primeira vez, a assinatura do meu trisavô Joaquim Cardoso D’Amorim, assim como o retrato de sua esposa, Maria de Jesus Dias de Azevedo, foram momentos de emoção particular. Assim como as descobertas que fiz em parceria com os primos-amigos Armando Pinto e Ricardo Pereira, mergulhados nas histórias das famílias Cardoso Sampaio e Dias de Azevedo.
Era como se meus familiares imemoriais ganhassem vida, à medida que eu descobria os detalhes de seus casamentos, profissões, nascimentos, heranças e lugares. Mais que vida: esses personagens que, há poucos meses, me eram completamente desconhecidos, tornaram-se quase íntimos. Um exemplo é o carinho com que hoje nos referimos, em casa, à trisavó Maria de Jesus e à sua mãe, Rosa do Carmo.

A cada descoberta mais inesperada — como as famílias de párocos ligadas à Casa de Santiago ou a trajetória de Joaquim Cardoso, de pedreiro a proprietário — o pensamento que surgia era sempre o mesmo: será que meu avô Joaquim ou meu pai sabiam disso? E mais longe ainda: será que o próprio Joaquim Cardoso sabia que sua esposa Maria de Jesus tinha ancestrais ligados à Casa de Torre, tão proeminente em sua Rande?
Pensamentos assim conduzem a mente por hipóteses e fantasias que divertem a imaginação e alimentam a curiosidade onde faltam respostas. Nunca saberei com certeza se meu pai chegou a ouvir a palavra “Rande”. Nunca a escreveu em nenhuma das muitas fotos da família que anotou. Minha intuição é que não conhecia. Curiosamente, ele é a única pessoa, dentre todas as gerações documentadas neste trabalho que, jamais esteve em Portugal. E, no entanto, pertence a uma linhagem que, por quase 500 anos, conecta Claire e Joaquim às gerações dos pais de Francisco Dias e Domingas Francisca — Manoel e Anna, Francisco e Maria — nascidos por volta da metade do século XVI.

É sempre mais fácil contar a história das vidas alheias, apontando falhas ou julgando decisões. Mas, ao escrever esta história, busquei fazê-lo sem emitir juízos, sem atribuir culpas. Acredito que cada pessoa toma, com os recursos que tem e nas circunstâncias em que vive, as melhores decisões possíveis. E mais: não se deve julgar os atos do passado à luz dos valores do presente. Tive o máximo cuidado com isso — não apenas por respeito, mas porque essa é uma base fundamental da minha visão de mundo.

Esta jornada também me reconectou com a língua portuguesa, que eu havia praticamente abandonado na forma escrita, desde que nos mudamos para o Canadá, em 2006. Após quase duas décadas, o início desta escrita foi difícil. Muitas anotações que resultaram em um documento de 55 páginas foram feitas em inglês. Mas, ao longo das leituras — centenas de assentos paroquiais, páginas de inventários, e uma gama imensa de documentos em português — fui, aos poucos, fazendo as pazes com o meu idioma de origem.

A imagem que não saía da minha cabeça era a da morte de Maria Isaura, sobrinha de Joaquim Cardoso — a última pessoa que o conheceu em vida. Pensei imediatamente no filme Coco, da Pixar. No universo do filme, existe um “mundo dos mortos”, onde as almas vivem após a morte. Lá, permanecem enquanto alguém, no mundo dos vivos, se lembra delas: conta suas histórias, olha suas fotos, pronuncia seus nomes. Quando ninguém mais se lembra, a alma desaparece no “esquecimento final”. É uma ideia tratada com delicadeza e simbolismo, mostrando que a memória e o afeto mantêm viva a essência de alguém — mesmo após sua partida.

Talvez esse filme tenha, inconscientemente, influenciado meu desejo de documentar essas memórias. Uma tentativa de resgatar e consolidar, com o máximo de fidelidade, os fatos e imagens, para que as gerações futuras da família possam manter algum elo com esses entes de eras distantes.
Enquanto escrevia este memorial, outro pensamento me visitou: que no dia em que eu também deixar este plano, talvez reencontre todos esses antepassados. Revejo meu pai, meus avós e, enfim, conhecerei Avelino, Glória, Maria de Jesus, Joaquim Cardoso e tantas outras figuras de um tempo imemorial. As fotografias…

Sei que tudo isso é fantasia. Mas a mente humana se consola nelas.
Imagino meu pai me dizendo que nunca ouvira a palavra “Rande”. Vejo meu avô me explicando qual negócio o levou em viagem, quando escreveu aquela bela carta de amor à sua futura esposa, minha avó Eneida.
Consigo ver o Avelino me contando, com um sorriso no rosto, exatamente quando foi de Itirapina a São Paulo, quando começou e quando vendeu o Café Portuense — confirmando que o carro da fotografia era, sim, um Chevrolet Supreme. Glória me diria a data e o nome do vapor que a trouxe da Póvoa da Catarina ao Brasil e confirmaria se havia ou não cassino em cima do Café Portuense.

Depois, Maria de Jesus descreveria a Casa de Santiago e o antigo Patrimônio na sua época, contaria histórias da paróquia e do seu tio, o Padre Azevedo. Falaria de sua mãe, Rosa e sua dedicação para com as pessoas em necessidade, e confirmaria que foi seu avô Pedro quem comprou a Casa de Santiago, depois de contar detalhes da visita da família real à mesma.
Chegaria também ao tio João, e juntos compartilhamos o prazer de observar o que as fotografias revelam — as semelhanças, as diferenças, os traços que nos unem e nos distinguem.

Joaquim Cardoso, figura tão central neste trabalho, me confirmaria que as terras da Ramadinha foram herdadas da combinação das propriedades de Maria Josefa de Amorim com as de sua esposa, Maria de Jesus. Me explicaria por que trocou o sobrenome Amorim pelo Sampaio. Também me contaria por que se sabe tão pouco sobre seu pai, Antonio Cardoso, o almocreve.

Por fim, ele tocaria meu ombro com aquele gesto silencioso e afetuoso de avô, enquanto meu bisavô Avelino, meu avô Joaquim e, enfim, meu pai — a linhagem que veio de Rande — se aproximaria com sorrisos ternos. E então escutaria meu pai dizer “Cassinho”, depois de tantos anos de silêncio, enquanto o abraçava — enfim — do modo como ele esperava naquela longínqua noite de 20 de dezembro de 2002.

Entraríamos juntos vagarosamente, na Loja da Ramadinha, do ano de 1900, no tímido encanto rural da Longra. Os sinos da Igreja de Santiago anunciam a missa, numa manhã fria de fevereiro, enquanto o Padre Antônio de Santiago preparava-se para a cerimônia.

E eu, então, os agradeceria. Por tudo o que fizeram. Porque cada decisão tomada — sem caber julgamentos entre erros e acertos — foi, à sua maneira, parte do caminho que me trouxe até aqui.

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